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Opinião - Política

 

 

Duas "visões de mundo", antagônicas: Ferreira Gullar x Tarso Genro

Láurence Raulino(*)


O jornal Folha de S. Paulo deste domingo - 08/01/2012 - publica dois textos "políticos", de conhecidos autores em suas respectivas áreas - a poesia e a política, eis que um deles é o renomado poeta maranhense Ferreira Gullar, e o outro é o advogado gaúcho Tarso Genro, atual governador do Rio Grande do Sul -, em diferentes espaços editoriais - TENDÊNCIAS/DEBATES e caderno Ilustrada, respectivamente -, que o/a leitor/a poderá confrontar, como fez este articulista, para estabelecer a inequívoca e abissal diferença nos pensamentos de ambos sobre o desgastado tema da política, abominado, mas inescapável para todos nós - indistintamente -, que vivemos em sociedade.

A política que é tema nos/dos artigos do poeta maranhense e do advogado gaúcho, no entanto, não é essa que lemos, ouvimos e assistimos diariamente nas manchetes e nos noticiários dos jornais, do rádio e da televisão..., além, é claro, da internet; ambos - autores e textos -, em suas, como dito acima -no singular - abissais diferenças, perspectivas..., tratam da alta política, pois discorrem e debatem sobre a própria política, e ali expõem visões distintas de meios, estratégias, etc. Todavia, os dois artigos não são textos acadêmicos, técnicos..., já que desenvolvidos e articulados com relativas clareza e simplicidade, como se exige no jornalismo - inclusive, de um modo geral.

Em seu artigo sob o título A utopia pariu um rato, Ferreira Gullar começa-o vislumbrando o ainda improvável, com a hipótese de Karl Marx - "o pai do socialismo científico" - continuar vivendo entre nós, ou seja, em pleno século XXI(onosso, o que sucedeu o século XX, óbvio, aquele mesmo que assistiu a ascenção ao poder da teoria marxista, assim fazendo a sua práxis, para, depois de 70 anos no topo de um mundo de fantasias e terror, de lá cair, após a queda do "Muro de Berlim", que o Hugo Chavez e outros malucos tentam hoje reconstruir, sob os "fundamentos" do "Socialismo do Século XXI" - Eh,hêhêhê...), ao cogitar o seguinte: "Karl Marx certamente morreria de vergonha se ainda estivesse vivo para ver em que se transformou, na Coréia do Norte, o sonho da sociedade igualitária e fraterna que ele concebeu."

No parágrafo seguinte, ainda falando de Karl Marx, Gullar prossegue: "Revoltado com a selvageria do capitalismo de sua época, quando o trabalhador não gozava de qualquer direito, concebeu uma sociedade que, em vez do domínio da burguesia, fosse governada pelos trabalhadores." Dali a "ditadura do proletariado", concepção não dele, Marx, mas do maior de seus epígonos: Vladímir Ilitch Uliánov, o Lênin, fundador e pai da extinta URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pois liderou a revolução que a instituiu em 1917, deixando-a em 1924, ao morrer, logo sendo substituído por Stálin, sucedido por outros, numa sequência que persistiu até princípios dos anos 1990, quando "a pátria do socialismo" caiu de podre, eis que sem um tiro das mesmas idéias que derrubaram o "Muro de Berlim", estas centralizadas no ideal de liberdade, efetivo e real.

Sem perder de vista o texto do ilustre poeta maranhense - também jornalista, profissão que desenvolve há mais de 50 anos anos no Rio de Janeiro, onde reside -, aqui eu abro um parêntese para observar que o fim da "pátria do socialismo", que também significou, na prática e efetivamente o fim do SOREX - Socialismo Realmente Existente, então(sigla criada para distinguir o socialismo real - ou seja, aquele que os países da "Cortina de Ferro" e países socialistas periféricos instituíram - daquele dos livros, ou seja, da teoria...), não acabou totalmente com o SOREX, que, contra toda a lógica da vida humana e de suas aspirações se mantém, especialmente na Ásia e em nosso continente, com as ditaduras partidárias e hereditárias da Coréia do Norte e de Cuba, respectivamente, ambas comunistas e sustentadas apenas(?) pelas políticas de restrições às "liberdades burguesas", na prática identificadas pelos colossais instrumentos repressivos dos respectivos Estados. Identicamente em ambos, uma espécie de "SOREX terceiromundista", um pequeno clube de transtornados e românticos a la Rousseau, no qual Hugo Chavez tenta o ingresso suicida de sua pátria(?), a Venezuela, em companhia de outros iguais.

Mas retornando ao artigo do renomado poeta Ferreira Gullar, eu não poderia deixar de registrar também aqui a sua conclusão, que ele faz com uma síntese sobre a trágica experiência da Coréia do Norte, seguinte: "Marx morreria de vergonha: ali a história voltou a uma espécie de monarquia farsesca, onde o poder passa de pai para filho sob os aplausos da plateia assustada."

Falando em plateia, embora ainda não "assustada"(e lutemos para que assim não sejamos, jamais, nem sequer plateia...), passemos agora ao artigo "esotérico" e oportunista sob o título Será um feliz ano novo? , de autoria do advogado gaúcho Tarso Genro, o atual governador do Rio Grande do Sul, texto do qual extraio a seguinte "pérola", inserta em seu sétimo parágrafo, seguinte: "Como é sabido pela ciência política e comprovado empiricamente, nem sempre a democracia gera progresso socioeconômico para a maioria, assim como nem sempre as ditaduras pioram as condições de vida dos cidadãos." Isso mesmo; foi o que ele escreveu, com todas as letras em seu artigo, em velada e subliminar defesa das ditaduras, que "nem sempre...pioram as condições de vida dos cidadãos."

Dali, na perspectiva do jurista Tarso Genro, a visão regresista e incivilizada prevalece sobre as exigências da vida civilizada e da afirmação ética e progressista do ser humano, à medida em que o autor do texto volta-se para a base material e os seus institintos primários, que todos sabemos existir em qualquer sociedade, em desfavor, portanto, de valores mais altos, como aqueles que devem prevalecer nas democracias, como o voto livre e desimpedido; a liberdade de expressão e de informação; a autonomia e a independência dos poderes políticos, etc. Havendo "melhoria da vida do povo" - expressão que o mesmo emprega em seu texto -, é o que basta, não?

Ainda em seu texto, Tarso Genro, como se ainda estivesse em campanha e falando do palanque, concentra-se em atacar o indefensável e insustentável neoliberalismo, como que "chutando cachorro morto", pois ele sabe que o pensamento e o modelo econômico dali originados encontram-se praticamente sem vida, por isso inofensivos, doravante, nas condições objetivas atuais. Isso, portanto, é tática ou fraca imaginação do articulista, que se percebe ter como verdadeiro alvo aqueles valores assegurados pela democracia real e pela economia de mercado, que ele supõe inviabilizadas com o esgotamento da social-democracia e do neoliberalismo, quando, falando do cenário externo", vaticina: "...há...cansaço tanto da social-democracia como da ideologia thatcherista-neoliberal."

Então, para aquele lobo gaúcho (em sua pele de cordeiro estaria mais para "lobinho", não?), que um dia eu chamei aqui no blogdoraulino de "pangaré vermelho dos pampas" - no desenlace político do "Caso Cesare Battisti" -, como para muitos outros socialistas, comunistas..., Brasil adentro e afora - o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre quem falei também neste blog(veja no artigo Žižek e a sua "Caixa de Pandora"), seria um exemplo de destaque crítico no campo externo -, o capitalismo e a democracia real encontrar-se-iam sem saída, pois tanto o modelo social-democrata, vigente até fins dos anos 1970, quanto o neolioberalismo, que o enterrou e prevaleceu dos anos 1980 em diante, até 2008, não teriam mais viabilidade, e assim...,cada vez mais nos aproximamos do tempo de cumprimento da profecia marxista. Isso é o que o governador gaúcho vislumbra e celebra em seu texto, cheio de equívocos e erros de conteúdo e de perspectivas, como sempre acontece com todos os socialistas, marxistas-leninistas, fidelistas, chavistas... Esquecem todos eles, ou não querem enxergar, que o que gera riqueza, emprego e liberdade é mercado e democracia.

Dizem que se conselho fosse bom não seria dado, mas vendido. Aqui, no entanto, eu oferto um óbvio para o Tarso Genro, nos seguintes termos: Tarso, mire-se no exemplo do poeta Ferreira Gullar, que combateu a ditadura e foi exilado, sofrendo, verdadeiramente, dentro e fora do Brasil, mas continua pobre, ao contrário de Vossa Excelência, que sempre foi o que é: um burguesão brincando de comunista. E acorde, cidadão, que isso que você e outros iguais/similares pensam para o Brasil não é sonho; é pesadelo. Para nós todos, brasileiros e brasileiras.

(*) - advogado, escritor e articulista