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Opinião - Política

 

 

O PDT hoje é igual ao Lupi: saudosista e corrupto


Láurence Raulino(*)

O PDT, salvo óbvias e honrosas exceções, que se apresentam por determinadas posições de alguns de seus quadros, de origens e compromissos os mais distintos (inobstante, sempre diluídos e sem visibilidade suficiente para destacá-los numa estrutura partidária e ideológica nascida já quase ultrapassada, e, ultimamente, muito mais que ontem, bem mais autoritária e fisiologista), tem no saudosismo e na corrupção, inescapáveis e irremediáveis, ao que parece, aspectos de seu "destino" desde o falecimento, em junho de 2004, do ex-governador Leonel Brizola - seu criador e o único líder de projeção e consistência na história da sigla. Com efeito, após a perda do "caudilho", restou ao PDT isso aí: saudosismo e corrupção, o binômio em que se transformou.

O saudosismo, na verdade, vem a ser uma destacada característica do PDT, eis que praticamente se reveste do/no maior dos seus fundamentos ideológicos, à medida em que, para começar uma narrativa, desde os primórdios a organização partidária volta-se para a "Carta Testamento" de Getúlio Vargas - o ex-presidente e inconteste líder de massas, levado ao suicídio no distante 24 agosto de 1954 - como o maior dos seus ícones, tanto no que concerne ao sempre questionável conteúdo ideológico do documento, quanto ao histórico compromisso de transformação do país, dali originário.

Ainda como característica partidária, o saudosismo do PDT salta de 1954 para o início dos anos sessenta, com a "Cadeia da Legalidade", o movimento liderado pelo próprio Brizola, do Rio Grande do Sul para o Brasil, visando garantir a posse do vice-presidente João Goulart - o Jango -, na Presidência da República, após a renúncia de Jânio Quadros, dali seguindo-se as "Reformas de Base", do mesmo Jango, inseridas no ideário do PDT, vindo isso a se constituir num verdadeiro amálgama de teses e lutas travadas ao longo dos últimos 30 anos - ao menos -, as quais foram convertidas em pontos programáticos "inegociáveis" e permanentes.

A "Carta de Lisboa", produzida ainda no final do exílio de Leonel Brizola, talvez seja a única referência partidária que escapa um pouco do saudosismo orgânico entranhado na história do PDT e que se mantém atual, mesmo depois de três décadas do evento - o "Encontro de Lisboa", entre exilados e parte da eclética oposição não -expatriada que dele participou - que a concluiu, de forma amplamente consensual e na perspectiva de um futuro sem a ditadura então vigente no país.

Depois de dois mandatos, intercalados(1983-1987; 1990-1995), à frente do "já falido" Governo do Estado do Rio de Janeiro - ambos cheios de muitas iniciativas progressistas, embora algumas marcadas por incontáveis controvérsias que tentaram reduzí-las, ademais de duas derrotas sucessivas na "cabeça-de-chapa" de eleições presidenciais(1989 e 1994), a liderança de Leonel Brizola foi pouco a pouco definhando, pelo peso de sua idade e das derrotas, mas o mesmo, apesar do seu oportunista e controvertido apoio oferecido ao ex-presidente Fernando Collor nunca transigiu ou compactuou, de modo visível e inequívoco, com qualquer tipo de "bandalheira".

Com a morte de Brizola em 2004, Carlos Lupi, um burocrata do partido, remotamente originário de São Paulo, mas vindo da "Baixada Fluminense", sem qualquer expressão política e sem voto, pois faltava-lhe - e ainda lhe falta - o mínimo apelo popular, é guindado à Presidência do PDT. Ali, o "ex-jornaleiro" do grande líder trabalhista, e áulico de destaque na "Corte" do velho caudilho assumiu, sim, a Presidência do PDT, não sem certa resistência do núcleo familiar e de alguns nomes de relevância histórica do trabalhismo. Logo a seguir, e no contexto que se avizinhava do "caldo do mensalão" petista, os tempos eram outros, e o partido, sob a presidência do Lupi, foi chamado a colaborar com o Lula, de quem foi nomeado ministro do Trabalho no segundo mandato do ex-líder sindical do ABC.

Porém, antes da nomeação de Lupi para o Ministério do Trabalho, mais precisamente nas eleições gerais - Congresso, governadores e Presidência da República - de 2006, o PDT disputara com Lula a mais alta magistratura do país, com o nome do senador e ex-governador do GDF Cristovam Buarque, uma liderança originária do Partido dos Trabalhadores - PT e que servira ao seu líder como ministro da Educação, até ser demitido do cargo por telefone, quando encontrava-se em viagem ao exterior.

Naquelas fatídicas eleições de 2006, ao constatar que a sua onírica e extravagante canditadura à Presidência da República, pelo PDT, não decolava, mesmo com a simpatia de significativa parcela da mídia e de alguns setores das elites mais intelectualizadas - isso por seu desorientado e monotemático discurso em favor de mais verbas para a Educação -, o senador Cristovam Buarque voltou-se para as eleições do Distrito Federal, quando, no exercício da Presidência do PDT/DF e compactuando cabalmente com a fraude partidária que viria a ser judicialmente comprovada pelo Ministério Público Federal/Eleitoral, retirou a legítima candidatura partidária, deste articulista, ao Senado - aprovada regularmente em Convenção Regional, junto com as demais, inclusive a de Ezequiel Nascimento para o GDF -, para por no lugar do "Procurador Raulino" o temido ex-líder do sindicalismo corporativo estatal e candidato ao "Palácio do Burity", visando um obscuro e envergonhado apoio ao então candidato José Roberto Arruda, do DEM-DF, que viria a ser eleito Governador do Distro Federal, e à frente preso e cassado, pela prática de inesquecível e escandalosa corrupção. Hoje, Cristovam e o PDT, como os demais políticos, querem distância do Arruda.

Seguindo os passos da experiência do senador Cristovam Buarque com o ex-governador José Roberto Arruda - que, inclusive, nomeara alguns auxiliares do eminente parlamentar pedetista para cargos estratégicos em "seu governo" -, aquela que, efetivamente "fizera escola" no PDT, o qual passara a ser dominado pelo sindicalismo e por áulicos de Leonel Brizola, após a sua morte, o ministro Carlos Lupi, na prática e "nos bastidores" - no discurso, zela pela "herança do Brizola" e do histórico "ideal trabalhista" - passou cada vez mais a tomar distância da memória do caudilho, ao passar a inspirar-se na irresponsabiliade e irreverência do Lula, o seu novo líder, que o cooptara, junto com o partido, para apoiar a sua "ungida" à Presidência, a atual presidenta Dilma Roussef - "o Dilmão" -, que o manteve até agora no Ministério do Trabalho, ao ser eleita e empossada na cadeira presidencial.

Nesse contexto em que o PDT hoje se encontra, alguém duvida que o Partido poderia deixar de ser saudosista e ter uma inequívoca visibilidade de um perfil difuso e majoritariamente corrupto, tal qual a figura de seu presidente fisiologista, Carlos Lupi?

(*) - advogado, escritor e articulista.